Eles e nós já nos parecemos tanto

Era 29 de setembro de 2017 quando pisei pela primeira vez nessa metrópole. São Paulo me atraía e me assustava na mesma proporção. Eu tinha certeza que, se houvesse algum lugar no mundo onde eu pudesse ser feliz, era aqui. Depois de tantos anos andando por onde acreditava poder viver e ser feliz, cruzando o país na esperança de encontrar, decidi dar o braço a torcer e acabar em São Paulo.

Cheguei e entendi: São Paulo é para todos, mas só é boa para alguns. Assim que cheguei, uma realidade que já via no Rio ainda que em menor escala, me lembrou de como é grande esse lugar: mulheres, adultos, crianças e animais dividindo uma coberta, um colchão, um toldo sob o viaduto. Moradores.

No início, os padrões pareciam mais identificáveis: usuários de drogas sem assistência, pessoas cuja dita sanidade já não aparecia há tempos. Pessoas sempre tão diferentes de mim e dos meus. O incômodo, esse nó na garganta de se ver um ser humano vivendo vulnerável ao tempo, ao frio, ao calor, à fome e às pessoas, estava ali. Mas eu não o via tanto nos meus amigos e conhecidos, velhos da cidade. A revolta dá lugar ao costume. Invisível é uma boa definição quando você encontra um humano dormindo do lado de uma poça de água e não faz nada.

Você começa a entender que os lugares onde não te abordam a cada dois minutos não são casuais – há sempre alguém que afaste “nós” e “eles”. Em algumas dessas a realidade aparece como um monstro enorme e nada invisível, que se apossa de uma senhora pequena e frágil que grita sentir fome e justifica não ser os nomes que a chamam, ou não procuraria comida no lixo para sobreviver.

Com o tempo você percebe que a indiferença é uma estratégia também. Não há o que fazer quando são tantas e tantas pessoas e você uma pessoa só. Quando uma ação sua, que você ainda faz questão de tomar, talvez pra dormir melhor, parece tão isolada que não faz diferença. Faz, ali. Faz àquela pessoa. Então ela vale. Mas é difícil lembrar, acredito, quando você se acostuma.

Praticamente dois anos depois, não me acostumei. O frio chegou e eu viro na cama pensando nos corpos que sentem muito mais frio do que eu, de dentro de casa. Política, economia, má administração – qualquer análise que eu pudesse tecer ou citar só valeria a mim – na realidade o número inchado de moradores de rua na cidade tem tantas causas quanto não tem soluções fáceis. O incômodo se mantém, e cresce, por um motivo egoísta e tão humano quanto qualquer instinto: eles já não são tão “eles”.

Das pessoas absolutamente exaustas e abandonadas pelas ruas, com olhos visivelmente distantes e a consciência aparentemente tomada pelos tóxicos e álcool, os tênis e mochilas aparecem de vez em quando. As tatuagens e acessórios também. Aparevem nas postagens nos meus grupos nas redes sociais, onde a bolha parece impossível de furar, às vezes infiltradas por um pedido de ajuda por despejo, doença, morte.

Os “eles” são cada vez mais “nós”. Minha indignação e incômodo não passaram, mas ganharam um aspecto que eu vejo, finalmente, ao meu redor: um medo latente do que há de ser, de onde estaremos se tudo piorar, e de onde estarão os meninos que lavam vidros e as mulheres que pedem cigarro de vez em quando. Ainda vejo esse medo se esconder, fingindo não estar. Espero que ele acorde em ação em breve.

Somos eles. Sempre fomos. Precisamos todos nos lembrar enquanto há tempo.

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