O que faz uma mulher

Li as pensadoras, estudei as teorias, escrevi dois trabalhos acadêmicos sobre a representação da mulher na publicidade e o impacto dela nas relações humanas. Falei com mulheres, pra mulheres, de mulheres. Para adolescentes em escolas públicas, dentro de uma faculdade, em todas as mesas de bar. Aprendi a construir um muro no sentido literal, observando. Descobri sobre rejuntes, rodapés, quintas, espaçamentos. Aos 20 sabia disparar uma arma – não como quem pensa que arma se compra no Extra, mas como alguém que maneja uma Rossi 22 com cabo de madre pérola e fabricação terminada em 1984.

Consigo sair de um ataque em pelo menos três posições diferentes. Tenho, há mais de 5 anos, um taser e um canivete em formato de cartão de crédito, a praticidade em 8,5 centímetros, além de um spray de gengibre no fundo da gaveta e um martelo na prateleira do quarto. Adotei cachorros, dei lar temporário, fiz resgates, comprometi meu salário, parei de comer carne, depois derivados, falei com todos os meus amigos sobre as relações de poder sociais entre humanos e entre espécies.

Fui a primeira da minha família a bancar minha própria educação até a pós-graduação, mais uma faculdade em curso, fluência em línguas, bolsas de estudo internacionais. Em seis meses paguei minha viagem de férias pra Europa, mais uma primeira vez dentro de uma família cuja matriarca foi vendida em casamento, cujo sonho inglês se limitava à princesa Diana. Escrevo pra mim, escrevo pelas mulheres que não conseguiram falar, do ódio com que escrevo guardo amor pra fazer óleos, chás e incensos pra outras mulheres.

Mas tudo isso, todo dia, não diz nada. Não diz nada quando saio na rua, reconheço um olhar assediador e sei que não há a quem recorrer. “Mas ele te encostou?” é a pergunta. Foi a pergunta pra uma amiga assediada dentro do trabalho. Amiga cuja história tem seus próprios primeiros três parágrafos de superação da morte, da vida, do trauma. Amiga essa que poderia ser alguma outra: a que saiu do interior de Minas Gerais e passou pra residência no Rio de Janeiro pra cuidar de pessoas que nunca vão poder retribuir financeiramente a dedicação que ela dispensa.

Ou a amiga que saiu de outra cidadezinha e veio encontrar propósito no próprio trabalho e se dedicar a ser independente, mas acabou sendo ameaçada por um técnico da internet cuja liberação de entrada no prédio foi dada pelo porteiro sem nenhum tipo de consulta a ela. Poderia ser a que se viu sozinha na cidade grande e vira noites nos projetos que acredita. A que estudou em uma área predominantemente masculina e é a engenheira mais inteligente que eu já conheci. Ou a que venceu uma crise psiquiátrica e se reergueu a ponto de arriscar uma nova carreira dois anos depois do pior momento da própria vida. Ou minha própria mãe, que passou a vida acreditando, inconscientemente, que o próprio valor dependia também da validação de um homem, e depois dos 50 pôde encontrar o que a faz feliz, como uma pessoa inteira.

Poderiam ser elas, e somos. Somos todas nós. O tempo todo.

Somos obrigadas a escrutinizar os detalhes das violências impostas e até a nossa linguagem é neutralizada – a violência não nos acomete, como uma doença. Ela é causada, tem um agente, não se valida de sujeitos ocultos ou inexistentes.  Somos nós, que quando denunciamos qualquer tipo de agressão a nós ou a outras, cutucamos o alvo que fica nas nossas costas o tempo todo até que ele sangue o nosso sangue, e ouvimos justificativas e nomes errados pro que fizeram conosco – dito “o que nos aconteceu”. Somos nós, que nos apequenamos pra relatar uma passada de mão no metrô porque vimos todos os dias casos de violências tão mais gritantes sendo analisados como uma partida de futebol na TV.

“É preciso ver a roupa que ela estava usando, onde ela estava, qual foi o contexto”. Não é um jogo. Entre um apertão e um corpo esquartejado em um matagal, as justificativas mudam muito pouco. Não existe análise racional ou relativização porque para os homens o número 33 pode representar a idade de Cristo, mas pras mulheres é o número de homens que estupraram uma adolescente no Rio há alguns anos. Pros homens, Liana pode ser só um nome, mas pras mulheres é um lembrete de uma jovem assassinada com o namorado em um casebre. Pra nós, o Parque do Estado, em Diadema, e o Central Park, têm um denominador comum: não se anda por ali à noite.

Os marcos históricos, o humor, as referências e a vivência de mundo dos homens e das mulheres são muito diferentes. E nós estamos cansadas. Dentre todas as minhas amigas, não me lembro de nenhuma sem alguma história de opressão. Dentro desse mesmo grupo, a maioria evita conviver com homens em ambientes sociais e profissionais, se fecha na bolha o máximo que dá, convive com mulheres e fala, se abre, se derrama, uiva junta o pesar que é falar pra ouvidos surdos.

Dentro da nossa bolha, teoricamente politizadas, ouvimos dos poucos homens que não a querem estourar, o quão absurdo é que uma pessoa ataque sexualmente a outra, ou a intimide, ou desvalorize suas ideias, ou qualquer um dos pontos sobre os quais falamos todos os dias. Mas essas mesmas pessoas, esses mesmos homens, no alto do privilégio deles, se ofendem e não entendem quando dizemos que eles também participam dessa roda tão ativamente quanto nós, porém com uma pequena diferença: nessa moagem eles são os bois e nós, os grãos.

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