Prioridades

Um dia de folga no meio da semana, um par de horas almejadas há dias e o olhar sustentado como folha em branco. Ultimamente tudo tem doído, em maior ou menor grau, como uma cirurgia que te deixa de olhos fechados por 6h ou um registro que nunca te inclui – e a ironia do último doer mais que o primeiro.

Uma página em branco, antes um medo, hoje mais uma forma de adiar o inevitável e o seio da literatura que me alimenta e carrega há anos que se mostra sangrento, rachado, cansado de me amparar enquanto rasgo minhas saídas e dreno meu sangue para não precisar agir.

A garganta amanhece dolorida, um foco de inflamação de um lado só, em uma constante luta contra a vontade de dizer, meu chacra laríngeo que não aguenta mais, os sapos se transformando em lâminas e de dentro pra fora cortando o que eu não disse. Sangue engolido, cortantes escorregados dos dentes pra fora como quem solta um osso de frango no almoço de domingo, e um sorriso.

A segurança, o signo, o babá, a numerologia, as duas terapias – tudo uma fachada pro grito preso que diz: já faz tanto tempo que caibo onde me colocam que a forma que tenho já não me vem à memória.

Uma terapeuta diria pra ser mais complacente comigo mesma, fazer menos cobranças, compreender meus processos. Eu diria pensar. Chegaria em casa procurando amparar ao ser amparo, tão mais feliz com os problemas dos meus, com as resoluções pra propor, os sacrifícios pra me prontificar. Outra terapeuta falaria sobre a necessidade de falar. “Dor de garganta, tosse, ombros pesados. Você precisa se abrir”. E eu diria que sim, preciso mesmo, e vou, em breve. Seria mentira. Foi das outras vezes.

Às vezes não se quer dizer pras pessoas pelas quais se doa que elas deveriam apoiar seus sonhos. Dói mais ainda pensar em confrontá-las. “Seu sonho é esse, esse e esse. Você quer morar ali e ter tal vida, no futuro viajar praquele lugar dos sonhos, e ainda bem que faltam anos pra que eu também possa te acompanhar. E quanto a mim?”. O silêncio vem tão antes que não há propósito fora do constrangimento em perguntar. “Quantas vezes você precisou me dizer diretamente sobre algo pra que eu te amparasse? E quantas vezes você leu o que eu escrevi quando não era sobre você?”.

Uma preocupação, vinte minutos falados, o coração numa analogia que eu amo: mais aberto que o mar da Bahia. Seus propósitos, seus sonhos, uma pilha de escombros dos quais eu não faço questão de sair e de onde te parabenizo e abraço. Há tanto pra pisar em cima e formar de si que meu caco de respiro ficou fundo demais, não há motivo em buscar. O amor que te escrevi também ali. Um pedaço do nada, um link perdido, um clique economizado e gasto em qualquer viral de dois minutos.

Não foi por tudo isso que eu fui embora das outras vezes. Foi pelo contrário. Eu pedi tanto por pessoas pra amar quando tudo era vazio que hoje é tudo cheio demais, e enquanto recebo dos rios, não encontro o mar. Transbordo, sozinha e cansada demais pra continuar.

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