Pronta pra tudo

Eles dizem que devemos estar prontas pra tudo sempre que possível. Como um recado inconsciente que pode não haver tempo pra se aprontar. Pronta pra tudo: com depilação definitiva e o corpo liso como uma adolescente. Pronta pra tudo, com os cabelos domados em um coquetel de química pesada. Pronta pra tudo, com um pedaço de algodão na calcinha todos os dias da sua vida. Pra você não aceitar que seu corpo adulto tem pelos. Pra você não aprender a cuidar e amar seus cachos ou seu black. Pra você não entender como seu corpo muda durante o ciclo.

Quando eles dizem pronta pra tudo, parece que eles olham pra fora. Que engano. Pronta pra tudo nas inserções do jornal das 21h, a publicidade mais cara de todas, não é sobre seu cabelo ou sua pele. Nada disso venderia tanto. É sobre sua auto-estima e aceitação, tão caras em todos os sentidos. Pronta pra tudo é mental: você não está pronta. Você nunca esteve pronta. Seus pêlos vão voltar, seus cabelos vão crescer, seu ciclo, abafado no calor de um protetor diário dispensável e sem propósito, vai mandar sinais ainda mais evidentes.

E pronta pra tudo também é isso. A rebeldia selvagem que indústria não dona. Quando você decide não viver em prol de estar pronta assim. Quando mesmo sem que você entenda, a matéria que te sustenta continua viva e anárquica. Ela sim, pronta pra tudo.

Quando eles dizem pronta pra tudo, a gente olha pra dentro. Pronta pra acotovelar no espaço público quem acha que só nos cabe ficar em casa (não vamos voltar). Pronta pra correr na rua escura (não vamos nos cercear). Pronta pra discutir e argumentar (não vamos nos calar). Pronta pra sair de casa todos os dias não sabendo se volta, mas pronta pra lutar pra voltar. Pronta pra bater de frente e levantar a cabeça, foco na meta e não nos arredores.

Eles falam pronta pra tudo em cor de rosa, com magreza padrão e maquiagem no rosto, nas páginas da revista que te ensina o oral que enlouquece os homens. Nós falamos pronta pra tudo com sangue entre as pernas apressadas e as chaves em garra entre os dedos na rua escura. Nós nascemos prontas pra enfrentar as ideias deles. Eles nunca vão estar prontos pra nós.

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