Da relatividade

Edita, corta, arruma a luz. Como em uma ilha a todo momento eu sonho em pular pro final e ver a gente ali, passado muito, pelo mundo, no fim de tudo: juntos.

E assim como contigo, com a vida. Do início que quero fim, um ciclo interminável de queimar pra que não fique oque demora. O fim, como finalidade e como encerramento, almejado enquanto o meio se apaga, um trem-bala que me impede de enxergar os lados, focado na chegada.

Vem da nuvem, mais uma vez, o impedimento. Um trovão que assusta as crianças e manda todo mundo pra dentro de casa. A chuva que te faz correr pro varal. A queda de energia que obriga o jantar a luz de velas quando o amor parecia sobreviver por aparelhos. Chega como um desligamento na via e tudo que era rápido e corria na velocidade da luz se faz ali, estático.

Corta. Você segura a minha mão, deita do meu lado, me observa olhar o teto. Corta. Te abraço enquanto você mexe uma panela no fogão. Corta. Metade, metade. Alho pro feijão, alho pro arroz. Corta. Gira na praça com o cachorro na guia enquanto eu dou risada. Corta. E já é dia 15 de novo.

Corta.

Quero apressar o todo e parar a hora. Ver um pouco dos 30 e descrever exatamente como as crianças são. Dar um pulo nos 40 e abrir o olho devagar pra ver se você ainda dorme do meu lado. Perder 2 minutos nos 50 e a gente com o quarto cheia de cachorro. 60 e criança correndo em casa de novo. Atrás da porta, de soslaio, garanto: não furei nenhuma bola nesse meio tempo (mas foi curto).

É sobre estar ali e ver. Se vai, se fica, se a gente deixa de sonhar junto ou não. Mas na vida real, com o abraço do meu lado, acotovelando meu nariz de madrugada de vez em quando ou me puxando pra perto no meio da noite, eu pisco e abro os olhos bem rápido, enganando o tempo. Ainda tem tudo pra viver e eu não quero nem que a manhã chegue.

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