Meio bosta, mas orgulhosa

“Você não precisa fazer essa linha perfeita”. “Tá quase lá, esse é um acorde difícil”. “O som é um pouco diferente, repete comigo”. “Fulana também faz isso, ela já tem três anos e é ótima!”. “Você só precisa deixar fluir e não pensar demais”. E a minha menos preferida: “O começo é assim mesmo”.

Eu não sei lidar com fracasso. Melhor: não sei lidar com menos que o sucesso absoluto, imediato, quase um dom divino. E uma afirmação dessas, tão ególatra e pretensiosa, na verdade ilustra minha insegurança do julgamento, da idealização, da imagem que eu construí como uma torra e me botei lá em cima, olhando pra baixo tristonha querendo descer enquanto do outro lado uma escada de emergência acumula poeira.

Há pouco percebi em mim e tantos amigos um padrão surpreendente (mas só se você não estiver prestando atenção no mundo): tudo que eu ou eles queremos muito fazer é difícil. Na verdade, não é bem isso. Muito do que queremos fazer é novo e nós não sabemos lidar com o que o novo traz.

Quando comecei a aprender a tocar ukulele, eu odiava cada segundo. Um sonho que eu tinha há muito, tocar um instrumento, se transformou numa tortura. Eu aprendi os acordes mas as batidas são difíceis até hoje, e por um bom tempo não queria pegar no instrumento pra evitar a frustração de não ser maravilhosamente talentosa com ele no colo. Vi o mesmo acontecer com tantos amigos, mesmo nas aulas de Inglês que eu ministro: a vontade de saber imediatamente todas as palavras e estruturas fez com que vários desistissem no primeiro semestre.

O problema em se sentir incapaz e insuficiente em algo que nunca tentamos é que esse sentimento é universal, mas acompanha uma vergonha que nos impede de falar sobre. Fica cada um em um canto um pouco angustiado e muito frustrado por não ser um ás em algo que acabou de começar, ignorando conselhos ou achando todos condescendentes demais enquanto cada um acha que o que é “pra si” vem como uma inspiração divina.

Não é assim.

Desconsiderando totalmente qualquer juízo moral sobre os exemplos a seguir, ainda vale a comparação de todo o perrengue que eles passaram e todos os nãos que ouviram com o que se conhece deles hoje:

Walt Disney foi demitido, teve um estúdio falido e negaram o financiamento do Walt Disney Company mais de 300 vezes.

Harrison Ford, com mais papéis do que eu conseguiria exemplificar, foi carpinteiro até os 30 anos, segurando as pontas da família com bicos na TV.

O Stallone chegou a vender o próprio cachorro de tão pobre que foi – e comprou de volta depois da fama, com juros.

J.K. Rowling não tinha dinheiro pra imprimir o primeiro manuscrito de Harry Potter. Ela digitou 900 páginas na máquina de escrever.

Carrie, de Stephen King, foi rejeitado 30 vezes, assim como Spielberg não entrou na faculdade de cinema duas vezes.

Jim Carey já morou em um ônibus.

Todas essas pessoas extremamente talentosas e mundialmente famosas começaram medíocres mesmo nas áreas que as revelaram. Mas a própria comparação com quem “deu certo” é injusta.

Por que não se pode fazer algo por prazer, por hobbie, por amor, e não pelo sucesso? Não faz mal se sua caligrafia é meia boca mas você gosta muito de praticar. Você não precisa ser o novo Spielberg se a sua pira é fazer filmes com seus amigos, talvez você só precise socializar com eles e se divertir. O violão não precisa ser seu ganha-pão, mas pode ser sua válvula de escape, por pior que você seja. Se seus bonecos de palito e rosas de espiral te distraem e divertem, por que elas precisam virar obras de arte realista?

Vivemos no mundo das pessoas fisicamente melhoradas, do corretor automático, do auto tune. Depois de 26 anos me esforçando pra ser perfeita, eu quero algo novo: ser mediana, medíocre ou até mesmo ruim em alguma coisa. E rir com isso.

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