João e a Aranha Gigante [parte 1]

João sempre caminhou depressa, seus pés pisavam na mesma medida de seus pensamentos. Era um jovem que sabia para onde ir, confiava em seus pés, confiava no destino que eles iriam seguir. Mas nem sempre pode-se confiar no desejo do que buscamos, há tempestades que nos sujam de lama, afundando nossos pés e nos fazendo errar o certo caminho. Mas João não temia a chuva, o vento ou os barulhos da floresta, e talvez sua coragem o tenha levado a algo muito maior do que os desejos de seu coração.

Começou com uma gota no seu nariz e tempos depois todo o seu cabelo estava molhado. O vento mais forte que o comum se tornou ameaçador como nunca, já que as gotas de chuva juntas se tornaram pequenas laminas que lhe cortavam de frio. A noite o cegava enquanto a lua se escondia de toda aquela tempestade. Até que uma escuridão ainda maior lhe pareceu a sua segurança. Em meio a árvores e folhas ao chão, ele encontrou uma caverna, com chão de pedras e ecos em seu fundo, sua entrada dava as costas a direção que a chuva jorrava, ele entrou sem muita hesitação. Mas algo estava bom demais, o conforto lhe soava com uma traição e sem que percebesse, oito patas de uma aranha o arrastou para a escuridão. Não sentiu mais nada com o susto, apenas entregou-se a situação. Fechou seus olhos e abriu seu coração.

João acordou amarrado a teias fortes que dificultavam a sua respiração. Sentia-se como uma presa, algo que já havia aceitado, sem que lhe restasse muita opção. Vez ou outra chorava, quando sentia as teias aperta-lhes seu peito. O desespero lhe tomava conta quando as patas da aranha lhe envolviam, mudando-o de posição. Não entendia o porquê ou qual seria a razão, mas sentia-se agradecido, já que lhe aliviava um pouco as dores de sua respiração. Já havia passado tanto tempo amarrado as teias que vez ou outra sentia-se agradecido por não ter morrido, por mais que sua vida, no atual momento, não fosse das melhores, passou a admirar a aranha pela piedade em sua prisão. Por mais que ainda se sentisse uma presa e ainda respirasse mal, conseguiu encontrar conforto nas teias que o envolviam e na vilania de seu temível vilão.

Porém numa noite, seus olhos abriram e sentiu a solidão. A impotência de não se mexer e da vida que estava perdendo, sendo feito de prisioneiro em vão. Seu medo da aranha ainda o corrompia, lhe fazendo duvidar de sua opção. Notou que ainda tinha sua espada, poderia libertar-se e se esconder na escuridão. Mas temia o rancor da aranha, temia que sua liberdade significasse traição, que começasse a segui-lo para comer o seu corpo ou alma. Mas a dor em seu peito conseguiu ser maior que o medo de sua paralisação. Remexeu-se daqui, remexeu-se de lá e lâmina de sua espada cortou as teias que o prendiam com facilidade, o fazendo respirar tranquilamente, estufando o peito, bravejando sua libertação. Mas o pânico logo voltou, teria que lidar pessoalmente com sua vilã. Correu por entre os tuneis, escondendo-se em frestas e buracos. Encontrou mais teias e mais escuridão, mas sentia-se melhor a cada passo dado a sua total fuga, mas a determinado ponto sentiu-se frustrado, ainda vivia com medo, ainda era um prisioneiro, a aranha não havia o libertado. Tornou-se prisioneiro de seus próprios planos. Mas o medo de enfrentar a besta o fazia tremer. Seus olhos se enchiam de lágrimas só em pensar. Ainda havia um longo caminho para passar, mas João sempre caminhou depressa, e sempre confiou no caminho que eles queriam seguir.

Seus pés passaram a viver pisando em pedras, era um chão duro e frio. Não havia vida ali para ele, suas raízes nasciam para morrer e na medida que o tempo passava, João morria também. As cores de seu rosto foram sumindo, os galhos de sua cabeça foram secando e quebrando. Ele morria enquanto adiava se salvar. Sua mente ia sumindo no meio da escuridão. Ele não via a aranha a algum tempo, mas sabia que ela o espreitava, sentia seus olhos lhe perseguindo, seus rastros de teias marcando o seu território. Ela ainda era maior que ele e era ela que o torturava, em sua ausência e toda a segurança que ela lhe passava com sua força e sedução.

Mas nos finais de seus dias, João ergueu-se e caminhou em direção a saída. Havia acordado com um filete de luz solar em seu rosto. Já havia caminhado tanto que conhecia a caverna tão bem quanto a sua nêmese. O sol lhe deu um suspiro de vida, a grama cresceu em suas sobrancelhas e cada passo que ele dava, algo florescia em seu corpo. A luz se tornava maior e sua vida retornava cada vez mais rápido. Mas sua recuperação durou pouco. A luz que banhava o seu corpo cortou-se em quarto patas peludas que se opuseram à sua frente. A aranha bloqueou toda a saída com seu corpo e toda a luz que entrava na escuridão desapareceu. Suas presas se mostraram enormes, mexiam-se causando um terrível pavor, seu corpo se encolhia para que coubesse no espaço minúsculo que ela havia escolhido viver. João sentiu seu corpo enfraquecer na escuridão, mas munido de uma coragem que ele não entendeu de onde surgiu, empunhou sua espada e desafiou a aranha. Ela o atacou com violência, mexendo-se para cima e para baixo, jogando-lhe lances de teias e o assustando com sua tamanha imponência. João, que mal sabia manejar sua espada, foi duramente ferido. Atacou com todo o medo que havia sentido nesse tempo que ficou aprisionado, fazendo a aranha sangrar com tamanha revolta. A aranha, agora ferida, sentiu-se profundamente desafiada naquele momento. Não havia mais compaixão em seus atos, mataria João assim que pudesse e comeria seu coração até que se enchesse. Mas ao perceber o valor de sua vida indo embora com a derrota se aproximando, João correu, escondeu-se enquanto sangrava e chorava. Seus pensamentos eram tão fortes que vozes os ecoavam de algum lugar. O veneno da aranha alastrou seus ferimentos. Tristeza, mágoa e desilusão comeram o resto de seu ser. Sentiu seus galhos secos sobre sua cabeça, viu as folhas mortas caírem ao chão.

João era uma árvore, presa num chão de pedras. Suas raízes não expandiam, havia sido condenado a morrer seco e sozinho. Ele olhou para cima e por uma rachadura da rocha vislumbrou a seu algoz fazendo uma nova vítima. Um outro menino havia caído em um dos buracos da aranha, que o atormentava enquanto comia o seu medo. João fechou os olhos e deixou o seu resto de bondade florescer em uma flor amarela em seu peito. A flor desabrochou e libertou seu perfume, que subiu até que o menino lá em cima sentisse.

O pobre João aquietou seu corpo ali e o deixou secar. Ele morreu ali… para todo o sempre.

Continua.

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