O Monstro

Ele esperava que chovesse naquela noite, para estragar ainda mais as coisas. O tempo estava aberto, mas o frio lhe cortava as pernas, assim como sua mente inquieta lhe cortava as emoções. Caminhava para a parada de ônibus como fazia todos os dias, com sua jaqueta jeans e a bolsa em suas costas. Mas neste dia ele não teve pressa. Por mais que a avenida fosse perigosa ele sentia que não tinha mais nada a perder. As esperanças que um dia lhe animaram haviam sido roubadas, seu coração batia devagar e seus olhos olhavam fixos para frente. Quem o visse de fora era só mais um adolescente velho de cara mal-humorada, ou alguém descolado. Mas sua mente se contorcia em frustração e tristeza. Culpava o mundo, mas não tinha a quem jogar de volta toda essa amargura, e quando as coisas pioram elas tendem a piorar ainda mais. Seus passos foram se tornando mais pesados e ele se negava a sentir todas essas coisas. Se negava a se sentir sozinho naquela avenida. Negava todos os seus problemas. Negava toda a sua dor. Não queira ser responsável por estragar ainda mais a sua vida. Não queria incomodar ainda mais as pessoas que estavam cansadas de sua existência. Afinal, isso não era tão importante. Ninguém gosta de más notícias. E quem iria querer ficar ao lado de um cara como aquele? Ele pensava enquanto seguia seu caminho. Chegou a pensar que a culpa de tudo fora sua, que as pessoas não são ruins, mas que seu jeito é que afasta tudo. Que suas queixas e magoas são grandes demais para os outros lidarem. Que ainda é uma pessoa sentimental e idiota. Que a gentileza e a compaixão fossem ilusões da qual ele caiu. Que todas as suas certezas eram mentiras. Ele não se achou digno naquele momento, apenas curvou seus ombros para frente e baixou sua cabeça enquanto dobrava a avenida. Mas um tremor na terra o dispersou de seus pensamentos. Seus pés não pararam, nem sua cabeça foi erguida, mas sua mente parou um pouco. E então um outro tremor em seguida e mais outro e mais outro. Seus pés pararam assim como os tremores. Ele levantou a cabeça um pouco e a sentiu pesada, mas seus olhos deslizaram até encontrar um colossal gigante de pedra parado no meio da avenida. Tinha olhos vibrantes e vermelhos, alguns galhos e pedaços de árvores em seu corpo e uma respiração forte que soava como um rugido contido. A rua estava tão silenciosa que era possível escutar o bater do coração dos dois. O menino não soube como reagir, mas sua primeira ideia foi correr o mais rápido que conseguia. A avenida era longa, espaçosa, porém com calçadas estreitas que o forçou a correr no meio da rua. Ele correu como se sua vida dependesse daquilo, seu peito ardia e sua visão escurecia as vezes, mas seus pés continuavam implacáveis. O gigante, no entanto, seguia em seu encalço, destruindo árvores e deixando a marca de seus pés no chão. A terra tremia a cada pisada e as árvores eram balançadas com extrema violência, as fazendo entortar ou quebrar seus troncos espalhando folhas por todos os lados. O menino, que ainda corria, já não aguentava mais. Ele caiu no chão em determinado momento. Seus olhos se encheram de lagrimas e pode sentir seu coração bater tão forte que machucava. Os tremores pararam, assim como o gigante, que observava o garoto no chão. Um pouco mais recuperado, o menino virou-se para cima e o encarou, que daquele ângulo parecia ainda maior. Ele não conseguiu conter as lagrimas e pela primeira vez desde muito tempo, ele chorou de verdade. Deixou correr todos os seus sentimentos. Chorou a ponto de suas molhar o chão, a ponto de perceber o quando ele mesmo precisava de um pouco de compaixão e ternura. Ele se permitiu sentir-se sozinho naquele momento, porque ele se viu sozinho. Apenas com a imagem da morte latejando em sua cabeça, ele percebeu o quanto machucado ele estava, o quanto magoado ele se sentia e o quanto de perdão ele precisava. Por um momento ele se sentiu mais leve, o medo ainda lhe dominava a cabeça, mas a ideia de morte lhe pareceu excitante. Um sopro de vida à beira da morte. A estranheza das coisas lhe pareceu uma grande paranoia, mas ele se encontrava tão perdido que aceitou sua loucura sem grandes dificuldades. Afinal, foi a única coisa que lhe restou. Um punhado de sonhos quebrados, guardados numa alma que nunca teve a chance de se provar. Foi a verdade que ele viu nos olhos do gigante. Uma verdade que lhe falou.

– Ainda não é a hora de você desistir.

– Quem é você? Um monstro?

– Sim, sou o seu monstro.

– E você vai me matar.

– Isso é você que irá decidir.

– O que quer dizer?

– Que você tem a opção de sacrificar a sua vida ou de gritar para o mundo a dor que você sente.

De repente, o gigante socou um prédio ao seu lado, o fazendo um enorme buraco. Tijolos e poeira caíram para todos os lados e um sorriso brotou no rosto do menino. Não se sabe como, mas tal feito o aliviou de suas dores. Porém, uma irá cresceu de dentro dele.

– Diga ao mundo o quando ele te magoou. Não segure dores que não são suas. Esmague-as e as destrua. Quebre toda essa besteira.

O gigante então levantou uma de suas pernas e pisou em um carro, que o amassou inteiro, o deixando fino e inteiramente irreconhecível.

– Está na hora das coisas mudarem. De destruir tudo. Limpar todo esse caos.

O gigante levantou mais uma vez sua perna e chutou um outro carro, o jogando longe.

– Mas você está deixando tudo ainda mais bagunçado. O que está fazendo? Você vai destruir a cidade!

– Esta é a cidade que destruiu quem você é. Que o esmagou em suas regras e jogos. A cidade que te manipula, que te assusta.

O gigante virou-se de costas para o menino, levou suas duas mãos ao céu e desferiu um forte golpe, abrindo uma enorme rachadura no chão. Ele virou-se de volta ao menino e disse.

– Destrua tudo aquilo que está te magoando. Tudo o que está colocando dúvidas sobre quem você é de verdade. Todos esses prédios que escondem o céu, esses carros que barulhentos, essas pessoas que não te conhecem de verdade. Limpe a terra para que algo novo cresça.

O gigante ajoelhou-se e estendeu sua enorme mão.

– Agora me diga, o que quer destruir primeiro?

O menino perplexo viu a enorme mão parar em sua frente, a cada golpe do gigante sentia a calma permear o seu corpo e ao ouvir a pergunta a resposta brotou automática em sua boca.

– A escola.

– Para a escola então.

A mão colossal pegou envolveu todo o corpo do menino e juntos eles desapareceram noite a dentro. O menino não via nada de dentro da palma, sentia apenas os tremores dos passos rápidos do gigante e antes que percebesse a mão se abriu e o colocou no meio do pátio de seu antigo colégio.

– O que vem primeiro?

– As salas.

O gigante estendeu o seu braço e o passou violentamente pelo primeiro andar inteiro, o prédio ruiu no mesmo instante. Com seus enormes dedos ele puxou uma viga mais fina de concreto e colocou na frente do garoto.

– Quebre as janelas.

Com dificuldades o menino levantou a viga e junto ao gigante eles destruíram tudo, não sobrara nada que o lembrasse daquele lugar. Em meio aos destroços ambos sentaram e o gigante voltou a perguntar.

– Qual o próximo lugar?

– Vamos a todos os lugares mesmo?

– Quer desistir?

– Não! Eu só não acredito no que estamos fazendo.

– Não esperava sentir calma tão rápido?

– Eu não esperava sentir calma.

– O que esperava?

– Mais caos. Me é curioso ver que algo tão destrutivo pode me acalmar tanto.

– Você não parece calmo, eu diria aliviado.

– Eu não devia ter feito isso.

– Mas agora já está feito.

O menino pós as mãos na cabeça e começou a chorar.

– Está tudo ainda mais bagunçado.

O gigante levantou e disse.

– Você subestima o caos. Não há construção sem que algo seja destruído antes.

– Mas o que iremos construir se não sobrou nada!

– Você chora em cima do que sobrou e não enxerga?

– Estamos em cima de ruinas!

Disse o menino gritando.

– E o que há embaixo delas?

O menino olhou para cima confuso e o gigante sério disse.

– Espaço.

As enormes mãos se afundaram em meio aos escombros que subiram carregando enormes quantidades de pedras, o gigante abriu a boca e as devorou como se lanchasse após um longo trabalho. O menino, intrigado, apenas observou. Ao longe foi observando outros gigantes se aproximando e todos eles devorando os restos da escola destruída, até que não sobrasse mais nada. Um a um os gigantes foram dando as costas e sumindo em meio aos prédios.

– Quem são eles?

– Irmãos, digamos.

– Como assim?

– Nascemos de uma mesma pessoa, mas depende bastante dela para que nos demos bem, nem sempre acontece.

– Mas eles vieram.

– Sim, nos alimentamos de destruição, é algo que nos chama.

– O são vocês?

O gigante não respondeu, parecia concentrado em algo, sua boca se remexia como se algo tivesse preso entre seus dentes. Com a mão direita ele tirou algo da ponta de sua língua.

– Estenda a mão.

O menino inseguro estendeu a mão e do alto lhe caiu o que lhe parecia uma pequena rocha amarronzada.

– O que é isso?

– Reconstrução.

O gigante abriu um buraco no chão e olhou para o menino que jogou a rocha dentro. Logo em seguida o buraco fora tampado e o terreno aplanado com enormes tapas. O gigante pós as mãos no chão e aproximou sua cabeça da terra, abriu sua boca e jorrou um líquido verde com pedaços de pedras. O menino olhava com nojo enquanto pés caminhavam para trás até alcançarem a calçada. O gigante parou o seu vomito e olhou para o menino fixamente.

– Tempo de dar tempo.

O gigante levantou sua mão e tapeou com força o chão, o fazendo estremecesse como nunca. O menino sentiu um calor emanar do vento jogado pelo tapa e ao perceber a mão se erguendo viu o fogo surgindo. Todo o local fora consumido pelas chamas e em meio a elas viu o gigante se levantar, onde o fogo agora fazia parte de seu corpo o deixando terrivelmente mais imponente, porém pedaços do seu corpo caiam aos poucos, os troncos e raízes brilhavam em laranja e o calor e a luz ofuscou toda a noite ali presente. O menino assustado fechou seus olhos e sentiu seu corpo estremecer junto, o aperto em seu peito o dilacerava junto ao formigamento de todas as partes de seu corpo, não percebeu que lagrimas desciam do seu rosto até que seus olhos se abrissem e ele percebesse onde estava.

Ainda era noite e o frio ainda lhe cortava as pernas, mas se percebeu sentado na sua parada de ônibus, poucas pessoas também aguardavam e a cidade parecia cansada de mais um dia, luzes se desligavam aos poucos e cada vez mais o silencio permeava as ruas. A verdadeira calma veio logo em seguida, seus olhos secaram embora o tempo que parecia aberto ter se fechado pouco tempo depois. Ele pegou seu ônibus e sentou-se na janela, embora chovesse deixou a janela aberta, sentia as gotas pingarem e o frio que antes lhe incomodava passou a confortá-lo. Naquela noite ele apenas voltou para casa, sem se importar com a chuva, com os medos ou com ele mesmo.

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