Série “Special” é um recado sobre autoestima e a naturalização do conceito de deficiência

Não é de hoje que o público acompanha histórias de adolescentes LGBTQ+ e seus dilemas sobre relacionamentos amorosos, familiares e a inserção na vida adulta. A série australiana “Please, Like Me”, escrita, produzida e protagonizada por Josh Thomas, é um ótimo exemplo disso. Outro acerto das produções que falam sobre diversidade em suas narrativas é a introdução de protagonistas com algum tipo de deficiência em busca da naturalização de sua condição, como é o caso de “Atypical” e da recém-lançada pela Netflix, “Special”.

Baseada no livro “I’m Special: And other lies we tell ourselves”, a série “Special” é uma mistura das histórias acima. Entre 12 e 17 minutos de duração por episódio, a produção é uma comédia neutra e equilibrada sobre um rapaz chamado Ryan Hayes (Ryan O’Connel) que sofre com uma paralisia cerebral descrita por ele mesmo como moderada. Quando é aceito como estagiário em um blog de auto-ajuda, ele precisa “sair do armário” duas vezes: como um jovem gay e como um rapaz com limitações físicas, além de lidar com uma mãe que reluta em aceitar sua independência, interpretada pela atriz Jessica Hetch (Breaking Bad).

Ryan O’Connell é o showrunner, roteirista e protagonista da série, além de ser o escritor do livro em que a história se baseia. “Special” coloca questões sociais evidenciadas de maneira confortável para o telespectador, voltada para um público jovem e imediatista. Os episódios, com menos duração do que o habitual para uma série de comédia, mas com temas atuais, como a aceitação do próprio corpo, acaba se tornando uma receita improvável, mas eficaz.

Deficiência e sexualidade

Um dos destaques do roteiro na primeira temporada é sobre o culto do corpo perfeito (independente de gênero) e o preconceito como consequência de um ideal de beleza imposto pela sociedade. Com Jim Parsons (The Big Bang Theory) como produtor executivo, “Special” também aborda o relacionamento de Ryan com a família, amigos e paqueras, explorando situações corriqueiras e fáceis de causar empatia em quem assiste, como a baixa autoestima, dependência entre filhos e mães, e aquele velho debate sobre redes sociais como forma de “maquiar” a realidade, parecendo que tudo são flores quando na realidade não é.

A doçura do protagonista envolve o público. Quando Ryan conhece alguém através de um aplicativo de relacionamento e resolve perder sua virgindade, a preocupação pelo personagem é imediata, mesmo que as cenas não foquem em momentos tensos ou dramáticos. Por ser apresentada, desde o piloto, como uma comédia leve, não se espera que a série se torne tão séria e dramática nos últimos episódios, causando certo impacto em cenas com diálogos duros de ouvir e comportamentos que desmistifica o padrão de protagonista “certinho” demais.

A personagem Kim (Panum Patel) é outro grande destaque da série. Ela se torna amiga de Ryan quando ele começa seu primeiro dia de trabalho na agência. Em alguns momentos, Kim quase consegue ofuscar a presença de Ryan em cena, dando uma aula sobre aceitar seu próprio corpo e amar cada detalhe dele.

“Special” vale a pena porque é uma história real (de Ryan O’Connell) e tenta naturalizar pessoas que muitas vezes são invisíveis ou menosprezadas. Como o showrunner Ryan Murphy também faz em suas produções quando coloca atrizes com Síndrome de Down no elenco recorrente de “Glee” ou “American Horror Story”, reforçando o fato de que pessoas com deficiência podem interpretar desde líderes de torcida até bruxas macabras e que o fator que determina que elas sejam especiais não é uma característica física, mas, sim, a singularidade da alma.

SPECIAL

Número de temporadas: 1.
Episódios: 08.
Média de duração: 14min/ep.
Cotação: 5/5.

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