A piada mais engraçada de todas

– Olá meu jovem.

Disse o homem de chapéu e enorme sorriso no rosto.

– Hum, vejamos. Atlético, loiro e com algumas tatuagens escondidas, droga em alguns bolsos e passagens pela polícia por pequenos delitos. Mas veja só, parece que temos muito mais coisas em comum do que imaginei.

O menino não conseguia se mexer. Por mais que tentasse, seus músculos estavam rígidos e sua boca torcida num sorriso perturbador e maléfico. 

– Nós dois gostamos de diversão! Das risadas, de viver a vida sem nenhum arrependimento. Isso é bom, isso é muito bom. Isso nos torna amigos… Você quer ser meu amigo? Então agora somos amigos. E amigos se divertem juntos.

O sorriso, que já era grande, tornou-se ainda maior. Dentes brancos como porcelana em meio a um rosto pálido e apático, como o de um palhaço. O homem tirou uma faca de seu blazer e passou por entre os dedos. O garoto estremeceu na cadeira e o seu medo tomou proporções que ele desconhecia. Suava bastante e seu coração acelerou ainda mais. Teria gritado, se sua boca não estivesse rígida naquele sorriso monstruoso.

– Ora, não se preocupe… er… veja só, como eu sou mal-educado, não fomos apresentados. Meus amigos me chamam de Curinga. Um nome estranho, não é? Meus antigos amigos diziam que eu, espontâneo demais em minhas palavras, não dava para adivinhar o que vinha depois. Assim como um curinga.

O homem passou uma de suas mãos em seu queixo, pensativo.

– Hum, e enquanto ao meu mais novo amigo? O que podemos dizer sobre ele?

O homem se aproximou enquanto o garoto continuou calado, sentindo o sorriso em seu rosto aumentar cada vez mais. Colocou seu ouvido perto do sorriso que se esticava pouco a pouco, fazendo os cantos de sua boca sangrarem, mas nenhuma palavra saíra.

– Mike? Eu tive um amigo chamado Mike. Ele era tão calado quanto você. Isso me irritava bastante. Mas como eu iria saber que o idiota não tinha a língua?

O homem soltou uma gargalhada que ecoou pelo ambiente, algo tão aterrador que o corpo rígido do garoto paralisado começou a se debater em desespero.

– Então, Mike, isso aqui é apenas um presente para um velho amigo que eu estou esperando.

O homem pareceu devanear sobre certas lembranças, fazendo seu sorriso diminuir um pouco, mas ao voltar a si, seus olhos brilharam e seu sorriso se tornou ainda mais perturbador.

– Olhe só! Você escutou? Morcegos. Parece que temos visita.

O homem soltou uma gargalhada animada enquanto o telhado a sua frente era quebrado por um enorme vulto preto, que caiu ao chão como uma rocha. O homem sorridente se animou ainda mais, pulando e sorrindo, como uma criança que acabara de ganhar um doce.

– Não tem ideia do quanto eu espero por esse momento! Eu passei noites planejando, mas veja só, não tenho ideia do que falar.

O homem de capa preta à sua frente ergueu-se e o olhou seco.

– Solte o garoto.

Disse uma voz artificial, grave e rouca.

– Mas eu não estou o prendendo, somos amigos agora, e amigos não prendem uns aos outros. Não é? E somos tão parecidos. Dívidas com drogas, gostamos das mesmas músicas, ele até tem uma tatuagem com meu rosto. E, é claro, a melhor e mais importante das semelhanças: nós dois odiamos você.

O menino na cadeira levantou e virou-se para trás. Seus olhos estavam esbugalhados e o sorriso em seu rosto parecia lhe rasgar a face.

– Agora eu tenho amigos, já que você me magoou tanto em nossa última festinha. Não é verdade pessoal?

Das sombras do armazém, por entre as diversas caixas e entulhos, surgiram diversos outros jovens de olhar esbugalhado e perdido, com um sorriso pavoroso em seus rostos.

– Eu adoro esses jovens de hoje, tão modernos. É só dar uma festa num lugar abandonado e todos se tornam seus amigos. Mas para a sua sorte, eu não sou tão ciumento assim. Ora, não mesmo. Porque não passam um tempo juntos? Quem sabe o que pode acontecer?

O homem sorridente soltou uma enorme gargalhada e jogou algo no chão que explodiu em fumaça, o fazendo sumir com sua risada ecoando ao longe enquanto o homem vestido de morcego apertava os punhos. Em segundos, tudo havia se tornado um caos, diversos jovens com enormes sorrisos no rosto começaram a atacar o homem morcego, que com golpes rápidos os jogavam, desacordados, ao longe. Os jovens pareciam estar alucinados em dados momentos, alguns riam e outros pareciam estar se divertindo com toda a violência. Mesmo enquanto apanhavam, soltavam sorriso e pareciam perturbadoramente felizes com o que estava acontecendo. Haviam diversos deles, não paravam de chegar, alguns se amontoavam enquanto outros eram jogados para longe. Porém, uma buzina de palhaço soou, alto o suficiente para atordoar o homem morcego, que caiu de joelhos com as mãos nas orelhas, enquanto diversos jovens se jogaram em cima de seu corpo, o prendendo ao chão.

– Ora, mas é uma pena.

Dizia uma voz pelo ambiente seguido de um riso frouxo.

– Parece que nosso amigo Batman não sabe brincar com a gente. Menino mau.

A voz parecia ter ficado sombria de repente.

– Mas não se desiste de amigos, ainda mais de novas amizades. Vamos ajuda-lo a ser nosso amigo.

O Curinga surge caminhando de um jeito estranho vestido com cores berrantes.

– Sabe o que você está precisando? De um pouco de doce na sua vida. Já sei, precisa de uma piada. Nada mais engraçado do que algo que estava na nossa frente o tempo todo e não conseguimos ver.

O homem risonho tira um espelho detrás de si e mostra ao Batman seu próprio reflexo.

– Ai está! A piada mais engraçada de todas.

Porém, seu reflexo está distorcido, há um outro homem em seu lugar, um homem raivoso, sedento pela violência, gritando enquanto seus olhos vermelhos teimavam em se manterem abertos. Era um homem que ele conhecia. Um homem do qual ele se assustava.

Mas porque ainda está tão sério? Será que custa tanto abrir um sorriso?

Ele estende sua mão e na ponta de seu dedo há um pequeno quadrado de papel com o símbolo do curinga de um baralho qualquer. Diversas mãos abrem a boca do homem ao chão, que ingere a droga enquanto luta em vão.

– Pronto. Viu só, nem doeu… ainda.

O Curinga soltou uma gargalhada jogando sua cabeça para trás. O Batman, observado por diversos jovens de sorriso sinistro, sentia o desespero passar do comum para a lembrança do primeiro momento, que o sentiu tão forte assim. Seus olhos gritavam junto a sua boca enquanto ainda se debatia no chão e sentia um sorriso crescer em sua boca, uma loucura nascendo dentro de si.

– Bruce, acorde.

Disse Alfred às onze da manhã.

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