Primeiras impressões: ‘The Act’ garante trama viciante e excelentes atuações

Muitos conhecem Dee Dee e sua filha Gypsy porque o crime envolvendo as duas ficou bastante popular nos Estados Unidos. A história delas rendeu um documentário chamado “Mamãe Morta e Querida” (2017) e agora é novamente abordada pela série antológica “The Act”, original do streaming Hulu – mesma empresa responsável por “The Handmaid’s Tale” –, que teve seus dois primeiros episódios lançados na última quinta-feira (20).

Protagonizada por Joey King e pela vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante (em ‘Boyhood’), Patrícia Arquette, a série aborda o relacionamento obsessivo entre mãe e filha ao ponto de se desenvolver uma síndrome de Munchausen por Procuração. A condição é definida quando uma pessoa causa a si mesmo sintomas de doenças para convencer profissionais de saúde de que está realmente doente, atraindo a atenção de outras pessoas ao seu redor. O termo “por Procuração” acontece uma vez que, em vez de replicar os sintomas em si mesmo, a pessoa faz uma vítima se sentir mal, para que possa cuidar dela.

Com a base de “The Act” estabelecida, a série começa quando a polícia recebe uma denúncia de que algo pode estar errado em um dos bangalôs de um determinado conjunto residêncial, já que os vizinhos chamaram pela dona da casa, Dee Dee (Arquette), e ela não atendeu a porta. Após os oficiais chegarem ao local e descobrirem seu corpo esfaqueado, surge a dúvida de porque alguém machucaria uma pessoa que passou a vida inteira cuidado da filha doente (King).

Os episódios narram duas linhas do tempo distintas, a primeira contada anteriormente, em 2015. A segunda, sete anos atrás, mostrando Dee Dee e Gypsy chegando de mudança na casinha rosa, depois que perderam tudo no furacão Katrina. Rapidamente elas conquistam a empatia dos vizinhos, demonstrando um carinho enorme uma pela outra. Gypsy tem uma doença terminal, é paraplégica e se alimenta através de uma sonda na barriga. Sua mãe não faz outra coisa senão dar todo o conforto e cuidado que a filha precisa.

Contada pelo ponto de vista da personagem de Joey King, a filha, o público vai sabendo aos poucos que, na realidade, tudo aquilo é uma mentira, uma cena criada pela mãe da garota. A fotografia trabalhada na série é como observar uma moldura com uma bela paisagem em tinta: casas coloridas e bem distribuídas, em uma vegetação arborizada, dando a sensação teatral de que por fora tudo é feliz e pacato em contraste com os moradores de caráter duvidosos.

Nos primeiros minutos quase nos deixamos levar pelo cuidado da mãe, afinal, é esperado que se protegesse quem não consegue se defender por conta própria. A ideia é rapidamente cortada quando se apresenta uma mãe com obcecação doentia que se assemelha à Norma Bates (Vera Farmiga) em “Motel Bates”. Na minissérie “Homecoming”, a sensação de claustrofobia é desenvolvida pelo formato de tela que alterna de proporção 1:1 para a 16:9. “The Act” não usa o método, mas consegue atingir o mesmo desconforto apenas com o jogo psicológico e as atuações sufocantes de Arquette e King, relembrando vagamente a mesma relação conquistada com mais discrição, em “Sharp Objects”, com Amy Adams e Patricia Clarkson.

“The Act” prende a atenção do público por não tentar passar uma lição de vida. São fatos puros e absurdos, baseados em situações reais. Em determinado ponto, não fica claro quem está manipulando quem, quanto de informação as duas sabem uma da outra. Uma dependência doentia é estabelecida, que resulta nos fatídicos acontecimentos expostos no primeiro plano. Com o histórico de transformações das personagens vividas por Patrícia (como na minissérie Escape At Dannemora), não se pode esperar menos do que genialidade na atuação nesse novo trabalho. Mas se já esperávamos competência de Arquette, Joey King nos pega de guarda baixa e surpreende como Gypsy. A atriz ficou conhecida no longa “A Barraca do Beijo”, mas, ali, não entrega nada digno de menção. Agora, como uma adolescente torturada pelo desejo de ser livre, King passa por uma mudança não só física para o personagem, mas de reconhecimento pela atuação meticulosa e assustadoramente semelhante à Gypsy real.

Para aqueles que amam investigações criminais, “The Act” é a escolha óbvia. A série é uma criação da jornalista Michelle Dean, que também produziu o documentário “Mamãe Morta e Querida”, e Nick Antosca (Hannibal e Channel Zero). Não surpreenderia se a série, assim como suas protagonistas, recebem indicações ao Emmy deste ano.

Ainda não há previsão de transmissão da série no Brasil.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *