“Boneca Russa” tem bons personagens, mas roteiro pouco original

Apesar do nome criativo que conversa diretamente com a trama proposta, “Boneca Russa”, a nova série de comédia da Netflix, usa fórmula batida com alguns toques de originalidade, mas que não são suficientes para manter a atenção do público até o fim da temporada.

A atriz Natasha Lyone (Orange Is The New Black) – que também é a showrunner –, interpreta Nadia Vulvokov, uma mulher fadada a reviver o dia do seu aniversário em looping, sempre que morre. Caso consiga se manter viva (o que, adianto, nunca dura muito tempo), a protagonista até consegue passar para o próximo dia, mas basta um acidente fatal para que tudo se reinicie e ela acorde encarando o próprio reflexo em um espelho de banheiro, na sua festa. Nada muito diferente de produções cinematográficas como “A Morte te Dá Parabéns” e tantas outras, ou televisivas, como “Supernatural” e “The Vampire Diaries”.

A construção do sentimento de desespero e irritação da personagem convence apenas com a ajuda da trilha sonora. À medida que Nadia morre e volta para o mesmo lugar e hora, repetidamente, ao fundo, toca a música de Harry Nilsson: “Gotta get up, gotta get out, gotta get home before the morning comes”, que em longo prazo cumpre o objetivo de repetição mental causado pelo trecho, impossível de esquecer ou parar de cantarolar na cabeça. Tal recorrência também se traduz na própria definição do termo “boneca russa”, uma vez que o objeto, próprio da cultura bolchevique, consiste em várias bonecas de tamanhos diferentes, uma dentro da outra, fazendo alusão aos dias que nunca mudam de aparência além da espessura.

Infelizmente, a interpretação da eterna Nicky Nichols, de OITNB, é quase uma extensão do seu papel como presidiária de Litchfield. A começar que sua personagem, na comédia, tem os mesmos padrões da anterior: uma mulher que gosta de usar dos mais diversos tipos de drogas, rebelde que, neste caso, não desenvolve empatia alguma no público, salvo algumas risadas.

Um ponto que merece reconhecimento é a versatilidade que a série traz, não se limitando na comédia e desenvolvendo a metáfora e os detalhes de cenário que são importantes para a trama, como por exemplo, o sumiço discreto de pessoas ou a quantidade de peixes em um aquário. Particularmente, a história me captou não pela comicidade, mas pela história sobre uma pessoa aparentemente com muitos amigos, mas, ao mesmo tempo, com o emocional danificado, expondo uma rebeldia para esconder sua vulnerabilidade e seu desejo de se conectar de maneira mais profunda com o outro. Aliás, é nesse processo de conhecimento da protagonista que se esconde os melhores diálogos entre os personagens, entrando em temas considerados até improváveis para o gênero, como o suicídio.

Apesar da fórmula pouco criativa, o terceiro episódio quebra esse padrão ao inserir um pequeno fato (aqui omitido por motivos de spoilers) que cria a própria dinâmica da série, se distanciando um pouco de produções que já usaram esse tema em seu enredo e nutrindo o mínimo de interesse para os telespectadores continuarem avançando nos episódios. O que acaba não sendo tão difícil, já que a temporada completa consiste em oito episódios de 25 minutos de duração, não se fazendo necessária uma segunda temporada. Embora, provavelmente, tenha. Se você procura uma série instigante, “Boneca Russa”, talvez, não seja a melhor escolha. Mas se a intenção for passar o tempo com leveza, sem muito compromisso, basta apertar o play e relaxar.

BONECA RUSSA

Número de temporadas: 1.
Episódios: 08.
Média de duração: 28min/ep.
Cotação: 2/5.

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