Visibilidade trans, dentro e fora da TV

Uma sociedade tende a marginalizar o que não acha normal, o que é diferente do padrão. Quando se trata de pessoas, o tido como “diferente” acaba se tornando invisível não só pela esmagadora maioria, mas por si mesmo, ao encarar o próprio reflexo no espelho e ter a falsa ilusão de não encontrar quem seja parecido consigo, e ficar sozinho até não estar mais. Nessa busca por pontos em comum, algumas formas de comunicação podem servir como ferramenta de identificação: livros, cinema, TV. Como fonte de informação, esses recursos podem e devem esclarecer que, na verdade, negros, mulheres e LGBTs não têm nada de incomum, pelo contrário, esses sim, são a fatia maior do bolo.

Segundo a ONG Transgender Europe, o Brasil ainda segue em primeiro lugar na lista de países que mais matam transexuais no mundo. No ano passado, até setembro, 167 transexuais foram mortos no país; houve 171 mortes, em 2017, e 136, em 2016. Em todos os casos, o Brasil ocupou o primeiro lugar em assassinatos por transfobia. A discriminação contra esse grupo de pessoas dificulta o acesso aos direitos básicos. É ingenuidade achar que apenas a representação nas mídias pode extinguir a violência. Sim, precisamos de políticas públicas voltadas para os mais afligidos, de ações e programas que funcionem e coloquem em prática os direitos previstos na Constituição. Mas, ter essas pessoas representadas em protagonistas de filmes, histórias literárias e séries de televisão dão um novo significado à palavra “normal”, servindo como um processo de correção da visão de um mundo que aparenta ser real, mas que não abrange, de fato, grande parte da realidade.

Para transexuais que ainda não passaram pela transição hormonal, tudo fica mais difícil. “Por não ter começado [a transição], meu nome social e identidade não são respeitados”, conta Érre Dantas, em entrevista ao Uma Série de Coisas. Como homem trans, ele conta que é tratado com indiferença e que custam a se referir a ele no masculino. “Eu assumi minha transexualidade e meus pais nem comentam sobre nada, mesmo que eles vejam que eu me sinto desconfortável, não estão nem aí. Comecei a trabalhar recentemente, com nome social, gênero masculino, mas ninguém me respeita e continuam chamando no feminino. Só não me chamam pelo nome civil porque não sabem qual é”, diz.

Se para o jovem que mora em Maranguape, Paulista, o caminho é difícil, o preconceito também alcança quem é conhecido na TV americana. Até hoje o ator e compositor Alex Blue Davis (Grey’s Anatomy) recorda-se de um fato ocorrido dez anos atrás. Na época, ele também havia começado seu processo de transição de gênero e procurava conquistar seu espaço na indústria da música, trabalho que ama fazer. Mas foi durante uma reunião com um produtor musical, logo após ter cantado uma música no escritório desse produtor, que Alex teve a pior experiência de que se lembra.

“Primeiro, ele me comparou a uma cantora e compositora feminina, o que me deu a impressão de que ele não me compararia a um cantor masculino porque eu sou trans”, conta Alex ao Uma Série de Coisas. “Em seguida ele disse: ‘Deixa eu ver se eu entendi direito, você é mulher na parte de baixo e homem na parte de cima. Como é isso?’ Ele se achou espertalhão ao dizer isso, sem perceber que estava ignorando a minha identidade completamente”, relata o intérprete de Casey Parker, em “Grey’s Anatomy”.

Ignorar a identidade de pessoas transexuais tem sido uma indagação antiga, dolorosa e constante. Se a comunidade LGBTQ – que agora tem suas questões debatidas com maior frequência – sofre com o preconceito, o “T” da sigla se afunda ainda mais na indiferença e na invisibilidade que, anos atrás, levava até mesmo quem compartilhava da mesma luta a ter uma tendência em ‘torcer o nariz’. Hoje a comunidade está muito mais empática, como lembra Alex Blue Davis: “A parte mais louca é que ele [o produtor] era, supostamente, parte da comunidade LGBTQ, então eu pressupus que estaria seguro e seria respeitado quando entrei naquela sala. E foi esse o motivo de eu ter ‘baixado a guarda’. O comentário dele me deixou desnorteado”, explica. “Eu já me desprendi do ocorrido, porque entendo que havia muito menos compreensão há uma década, mesmo entre aliados. Hoje em dia, ninguém na comunidade LGBTQ acharia que falar esse tipo de coisa é aceitável”, finaliza.

 

REPRESENTATIVIDADE ALÉM DO ENTRETENIMENTO

Personagens femininas, negras e homossexuais possuem voz ativa nas obras da roteirista Shonda Rhimes. Mas um ponto importante a ser reforçado nesta terça-feira (29), data em que é celebrado o Dia Nacional da Visibilidade Trans, criado em 2004 pelo Ministério da Saúde, é que a representatividade não deve ficar apenas no mundo do entretenimento.

A intolerância também pode ser combatida com a inclusão dessas pessoas não só nas telas, mas fora delas, como nas escolas, por exemplo. Professores negros e LGBTQs, podem usar seu trabalho como forma de mudança social, dando voz para quem não possui uma. “Na vida prática ainda há limitações profissionais para pessoas transexuais porque o conservadorismo insiste que no máximo elas devem trabalhar apenas em salão de beleza e que nenhuma outra ocupação ou cargo poderia ser dado, o que mostra um preconceito enorme”, afirma Jô Menezes, antropóloga e coordenadora de programas e projetos da Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero.

Ocupar espaços na sociedade, seja em profissões ou na mídia, é uma forma de resistência e de desnaturalizar o preconceito. “Vemos muitos jovens que são espancados pelos pais por serem gays e meninas expulsas de casa por serem lésbicas, a heteronormatividade está decidindo quem deve morrer ou viver, como o caso do deputado federal Jean Wyllys, por exemplo” relata Jô sobre a desistência do mandato de Jean por causa de ameaças de morte. “Numa sociedade que avançou tanto, matar pelo fato do outro querer existir como ele é, isso é muito grave”, conclui.

Ainda segundo Jô Menezes, quanto mais representatividade na política e em movimentos sociais, assim como personagens na mídia, mais a sociedade vai se sentir provocada a debater, a não estigmatizar e a criar outra relação com essas pessoas que, numa sociedade democrática, devem ocupar todos os lugares.

Se isso acontecer, poderemos viver, quem sabe, como diz Rosa de Luxemburgo, em um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.

 

NAS TELAS

O personagem de Alex Blue Davis, em “Grey’s Anatomy”, foi introduzido no elenco na décima quarta temporada, mas nenhum alarde foi feito sobre sua sexualidade. O motivo disso pode ser traduzido pela cena – uma das mais emocionantes do episódio – em que o personagem Casey Parker surpreende Dr. Miranda Bailey (Chandra Wilson) com a notícia de que é um homem trans: “Eu sou um orgulhoso homem trans, Dr. Bailey. Eu prefiro que as pessoas me conheçam antes de descobrirem sobre meu histórico médico”. Com isso, Parker se torna o primeiro personagem transexual recorrente (que permanece no programa regularmente) no drama médico. Grey’s Anatomy se tornou, com sua 15ª temporada, a maior série médica da história da TV e está sendo transmitida atualmente pela ABC, nas quintas-feiras. No Brasil, a série pode ser vista pela Sony e pelo serviço de streaming Netflix.

 

Confira a tradução completa da entrevista de Alex Blue Davis ao Uma Série de Coisas:

USDC: Você já era compositor antes de ingressar na vida de ator. Antes de “Grey’s Anatomy”, vimos você em “2 Broke Girls” (2012), “NCIS: Los Angeles” (2015), entre outros trabalhos. Agora você interpreta o interno Casey Parker. Esse seria o personagem com mais pontos em comum com o Alex Blue Davis ator? Entrar para o elenco de “Grey’s” teve que impacto na sua vida?

ABD: A principal característica em comum que tenho com Dr. Parker é que ambos nos importamos com as outras pessoas e queremos ajudar quando e onde pudermos. Ele também tem a habilidade de rir de si próprio, o que, eu acho muito importante. Para além disso, somos muito diferentes! E para a segunda parte da pergunta: “Grey’s” impactou minha vida de tantas formas, é até difícil sumarizar. É, certamente,  empolgante ser uma pequena parte de um projeto tão bacana e também ter oportunidade de interagir com tantos e tantas fãs legais do mundo todo (como você!). É maravilhoso poder me sustentar fazendo algo que eu amo, pela primeira vez.

USDC: Na 14ª temporada [de “Grey’s”], um dos momentos mais marcantes de seu personagem é quando ele revela ser um homem trans. Na história da dramaturgia televisiva, a primeira personagem trans foi interpretada por uma mulher cisgênero e isso foi evoluindo até termos Candis Cayne em “Dirty Sexy Money”, “Grey’s” e “Transparent”, essa última série ainda contando com Alexandra Billings e Trace Lysette; a atriz Laverne Cox interpretando Sophia Burset, em “Orange Is The New Black”; Jamie Clayton como Nomi Marks, em “Sense8”; o personagem Cole, interpretado por Tom Phelan, em “The Fosters”; além da recente notícia de que “Supergirl” terá a primeira heroína trans, e “Pose” com o maior elenco trans da TV. Você acha que estamos no caminho certo para a construção de um cenário mais inclusivo?

ABD: Sim, a indústria do entretenimento está no caminho certo em se tratando de representação trans. Tem muito mais que ainda precisa acontecer, mas essa é a realidade da representatividade de diversos outros grupos de pessoas. Me ajuda a ser grato pelo tanto que já alcançamos.

USDC: Em “Grey’s Anatomy”, quando somos apresentados aos novos internos, fica claro que essa turma é a mais diversa que tivemos em toda a história da série. Além de seu personagem, tivemos a bela surpresa de Schmitt (Jake Borelli) sair do armário, além de Helm (Jaicy Elliot) ter uma queda por Meredith e os outros três, Bello (Jeanine Mason), Qadri (Sophia Ali) e Roy (Rushi Kota) serem estrangeiros. Não temos dúvida de que a série abraça causas que são injustiçadas, violadas e menosprezadas de alguma forma ao longo dos anos. É a força do show.  Como é ser um dos representantes da comunidade LGBT na série de tv?

ABD: Eu acredito que “Grey’s” desempenha a alcunha de escrever papéis LGBTQ otimamente. São personagens intrigantes, com nuances, nos quais a orientação sexual e/ou identidade de gênero não os define por inteiro enquanto seres humanos. Eu tenho orgulho de fazer parte dessa comunidade na série.

USDC: “Grey’s Anatomy” tem sido transmitido há mais de 10 anos, mas a representatividade das pessoas transexuais é muito recente. Além de Candis Cayne (participação curta), Parker é o primeiro personagem transexual no elenco recorrente. Como você se sente sobre isso? Existe um lado positivo e um negativo?

ABD: Nunca é tarde para adicionar um (a) personagem trans ao elenco principal ou recorrente de uma série. Olhando positivamente, no sentido de que ter Casey como residente é um passo na direção correta, eu posso ver que ele preencheu uma lacuna na questão de diversidade da série e isso é uma coisa ótima. Eu só vejo pontos positivos em ter o personagem do Dr. Parker no universo de “Grey’s”.

USDC: Como exposto na matéria, segundo a ONG europeia chamada Transgender Europe, apesar da transfobia ser crime no Brasil (como crime de homofobia), ainda somos o país que mais mata pessoas transexuais e transgêneras no mundo, seis vezes mais que nos Estados Unidos. Pensando nos LGBTQ’s brasileiros, se todos pudessem te ouvir agora, o que você teria para dizer a eles?

ABD: Para a comunidade trans brasileira eu diria muitas das mesmas coisas que eu diria para qualquer comunidade trans no mundo: é terrível o quanto crimes de ódio contra transgêneros são encorajados ou passam impunes. Eu acredito que a boa notícia é que o mundo está mudando de tom, vagarosamente, porém de forma contínua e, apesar de sempre haver quem não nos aceite ou respeite, nós vamos prevalecer, assim como nossos direitos humanos. Desistir de quem somos não é uma opção se a gente quer viver uma vida feliz. Enquanto isso, onde quer que você esteja, encontre aliados, encontre segurança entre amizades, não esteja sozinho (a). Há força nas muitas pessoas e liberdade no amor.

2 comentários Adicione o seu
  1. Não acredito que virei fã de Alex Blue Davis!
    que homem mais fofo!

    Tão bom ver os espaços que a mídia está dando para a comunidade LGBTQ+

  2. Que matéria linda!!! Confesso que fiquei emocionada com os relatos, infelizmente ainda vivemos num mundo onde a maior fatia do bolo é a mais assassinada, mais violentada e a que menos é levada em consideração. Seguimos na luta!

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