Crítica: Série “O Perfume”, da Netflix, é mais brutal que a adaptação para o cinema

O romance “O Perfume”, do escritor alemão Patrick Suskind, foi adaptada para o cinema em 2007 com o título “Perfume: a história de um assassino”. Recentemente, o serviço de streaming Netflix fez uma releitura da história original, transformando a trama em uma versão seriada atual, mas que mantém a essência da ambição do ser humano pelo “controle do amor” através do olfato.

Na literatura, um perfumista de olfato super-humano mata estudantes para usar a essência dos corpos na confecção de aromas que ele considerava perfeito. No cinema, por uma ótica maior, acompanhamos sua trajetória desde o nascimento, passando pela infância, até se tornar o poderoso perfumista, interpretado na fase adulta pelo ator Ben Whishaw, que venceu, no último domingo (06), o Globo de Ouro na categoria Melhor Ator Coadjuvante em Série ou Minissérie, por “A Very English Scandal”.

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Na versão alemã da Netflix, história que não tem relação com o longa, um grupo de investigadores liderados pela detetive Nadja Simon (Friederike Becht) – nutrindo um caso com seu superior – se deparam com o assassinato da cantora Katharina Läufer. Durante o funeral, cinco amigos da vítima, antigos colegas da escola, se reúnem para prestar condolências, mas um deles pode ser o culpado.

Como série, “O Perfume” tem narrativa própria e consegue entregar uma história independente das outras produções, deixando a escolha de assistir o filme ou ler o livro para o público. Pessoalmente, tendo assistido o filme antes, pude perceber detalhes “reaproveitados” do longa, tornando a experiência de acompanhar os episódios mais enriquecedora. A forma como o perfumista, no original Netflix, usa a banha para extrair das pessoas sua essência e usar na confecção dos perfumes funciona de maneira bem nostálgica e excitante para quem viu acontecer no longa.

A construção da personalidade dos cinco amigos é feita através de flashbacks durante os seis episódios da primeira temporada, relacionando a adolescência sombria do grupo para justificar atos da vida adulta. Elena, interpretada pela atriz Natalia Belitski, é a mais bem desenvolvida e, seu arco, o que talvez mais incomode, já que a série transparece certa frieza e violência por parte dos personagens masculinos, reverberando machismos, assédios e atos tão repulsivos que é difícil manter os olhos na tela.

Esse comportamento dialoga com a apresentação de mulheres ambiciosamente carentes ao ponto de colocar suas dignidades em segundo plano. Sendo tão crua, a série lança o questionamento que talvez não tenha ficado tão claro no filme: até onde alguém pode ir para ter o amor retribuído? Essa falta de limites beira o surreal e pode causar estranheza em quem busca assistir apenas uma investigação criminal. Nenhum personagem está livre de certa culpa, tornando difícil distinguir o maniqueísmo das séries policiais comuns. Pela determinação em justificar cada passo deles, no âmbito investigativo o roteiro é lento, mas isso não faz de “O Perfume” uma série rasa.

A trilha sonora e a fotografia são uma das combinações mais favoráveis da série, conversando com o clima de sedução da trama, quente em alguns momentos e frias em outras cenas. No cinema e na TV, a primeira vítima é ruiva. Os cabelos vermelho-alaranjados, visto, por exemplo, na mão de uma criança correndo pelo campo nos primeiros minutos do piloto, é inteligentemente usado e se relaciona bem com o tema que a série trabalha: violência e paixão andando quase sempre juntas. Pela exposição da brutalidade, seria sensato a produção ter classificação etária para maiores de 18 anos, embora esteja para 16.

O título dos episódios é interessante. Quase uma receita do que se precisa na construção de uma essência de perfume. O piloto, por exemplo, se chama âmbar cinza, um fixador de fragrâncias que é produzido no intestino de baleias – tendo relação com o estilo do assassino – e um dos ingredientes mais valiosos. Na sequência, o segundo episódio é denominado de “Escatol”, um composto químico que embora tenha cheiro desagradável, o uso nivelado pode ter odor floral.

Pelo ritmo lento, “O Perfume” não é uma série que o público terá a necessidade de maratonar. É uma história complexa que requer reflexões diferentes em cada episódio, porém suficientes para apenas uma temporada. Caso seja renovada, a produção corre o risco de perder a atenção do público, transformado a história de densa para entediante.

“PARFUM” (PERFUME)
Número de temporadas: 1.
Episódios: 06.
Média de duração: 50-60min/ep.
Cotação: 3/5.

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