Com altos e baixos, “Os Inocentes” apresenta um novo conceito das criaturas Metamórficas

Que o serviço de streaming Netflix tem investido em produções estrangeiras, não podemos negar. Mensalmente, uma leva de histórias são adicionadas no catálogo que te faz querer assistir mais de uma produção ao mesmo tempo. Nos últimos dias, a britânica “Os Inocentes”, criada por Simon Duric e Hania Elkington, chamou atenção do público por trazer à tona uma espécie pouco romantizada nas histórias: os metamorfos.

Quando se fala nesse tipo de sobrenatural é impossível não nos lembrarmos da Mística, do universo Marvel. Particularmente, não conheço um filme ou série em que essas criaturas tenham sido protagonistas (aceito sugestões nos comentários), por isso, decidi dar uma chance para o trabalho da dupla britânica. Para os que não curtem histórias de amor adolescente, é possível que deem um passo para trás ao perceber que o casal principal possui 16 anos.

A história acompanha a vida de June McDaniel (Sorcha Groundsell), uma jovem que leva uma rotina totalmente controlada pelo pai, tendo a mãe abandonado a família três anos atrás. Mesmo com a adolescência enclausurada, June consegue nutrir e esconder seu relacionamento com Harry Polk (Percelle Ascott), um jovem negro da mesma escola em que estuda, no qual também tem uma vida cheia de regras e responsabilidades.

Quando os jovens decidem fugir de suas vidas e construírem seu futuro, as coisas começam a dar errado. O roteiro segue uma forma clássica de narrativa no estilo Jornada do Herói, criada lá em 1949 pelo antropólogo Joseph Campbell. Resumidamente, temos três fases na escrita, a Partida, a Iniciação e o Retorno. Cada fase divide-se em mais seis subitens que não aplicarei aqui, mas que foi um problema para o desenvolvimento da história.

No episódio piloto, além da apresentação dos personagens e da vida dos protagonistas, também vemos June iniciando sua jornada e seus desafios, ponto principal da primeira fase do estilo criado por Campbell. Quando a dupla esbarra em dois supostos sequestradores que tem conhecimento dos dons de June, ela tem uma experiência acidental de metamorfose e descobre que não é uma jovem comum. É interessante acompanhar a trajetória de alguém que partiu do desconhecido, como se o público fizesse parte daquela descoberta e fosse cena por cena descobrindo o que acontece junto com a trama.

Mas a partir deste ponto, no que poderíamos chamar de Iniciação – quando começa os obstáculos da jornada – a história começa a ficar maçante. Com três grupos “caçando” os jovens (o pai da garota e seu irmão mais novo, a mãe policial do jovem rapaz e pessoas desconhecidas que estudam metamorfose), os arcos ficam pouco desenvolvidos e personagens colocados em cena apenas para fazer volume, sem alimentar a atenção e a curiosidade necessária para chegar até o final. Talvez pelo fato da produção estender-se apenas em oito episódios na sua primeira temporada, fique um pouco mais fácil de chegar até o fim. E uma vez que chegam aos últimos três episódios (Retorno), a história volta a ficar interessante e bem construída.

A repetição da narrativa é um ponto negativo, os problemas vividos por June e Harry apenas se repetem até que cheguem no clímax: encontrar quem realmente possa ajudar a controlar os poderes da garota, em uma ilha na Noruega. A fotografia fala por si, é pouco provável que uma história inglesa decepcione nos cenários e locações. As montanhas, campos e lagos é um espetáculo à parte. A trilha sonora, como To Build a Home e Heal, traduz a sensação e o desejo que toda a espécie de metamorfos almeja: um lugar seguro e pessoas em que possam confiar. Ambos tristemente ilusórios.

O elenco é muito promissor. Os atores convencem, embora a maioria deles sejam desconhecidos. A personagem Runa (Ingunn Beate), uma metamorfa que vive sob os cuidados de um médico, consegue tocar no íntimo e causar uma sensação de solidariedade para quem assiste, pouco aproveitada, mas que brilha em todas as cenas que aparece.

“Os Inocentes” tem problemas, mas atinge seu objetivo ao explorar o núcleo jovem sem parecer artificial e o núcleo adulto com o drama certo. Aos impacientes, é particularmente difícil de passar pela segunda parte da trama, precisando de insistência suficiente para chegar ao final.

Metamorfos na TV

Os metamorfos fazem parte das lendas de criaturas que percorrem o mundo. Neste caso, a espécie tem forma humana, mas pode se transformar em animais ou outros humanos. Em “Os Inocentes”, uma das questões levantadas é se isso seria um dom ou uma maldição.

Algumas séries e filmes, como “Game Of Thrones”, “Supernatural” e “Harry Potter”, inseriram os metamorfos em suas histórias, cada produção com seus detalhes particulares. Na série lançada recentemente pela Netflix, a protagonista June não só consegue possuir a forma física de quem toca, como seus pensamentos e habilidades.

Ainda na história de Simon Duric e Hania Elkington, o que faz os seres se transformarem são seus gatilhos. Cada um possui um tipo de sentimento que serve de força para sua transformação: amor, dor, medo. O problema é que, quando o metamorfo pega emprestado a forma física de outra pessoa, seu dono original fica em transe, indisponível para interagir com qualquer pessoa e só voltando ao normal quando a criatura volta a sua forma primária. E se, por ventura, uma segunda pessoa toque no metamorfo enquanto ele esteja mudando, ele possuirá a forma da última pessoa em que entrou em contato físico, mas a primeira pessoa tocada terá danos neurológicos permanente.

OS INOCENTES

Número de temporadas: 1.
Episódios: 08.
Média de duração: 50min/ep.
Cotação: 3/5.

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